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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

400 ANOS - CAPÍTULO - 3

 

                                                 
                                                        


                                                         EXEMPLOS DE ENFERMOS”


 


 

 

                                               Ter exemplos de superações para nos confortar, é ou poderia ser reconfortante. Pessoas que passaram por situações semelhantes, ou até mesmo piores, não ajudam em nada quem deita num leito cirúrgico. Ao ser internado na emergência de um hospital, conheci um senhor com uns onze anos a mais que minha idade. Um senhor de alta estatura, talvez, uns quinze centímetro a mais, já que minha estatura é de mais ou menos 1 metro e 69 centímetros. Pelo corpo avantajado, deveria pesar uns 130 kg. O que tínhamos em comum (coincidência) foi o fato de ele ter enfartado também. Todavia, seu humor era de dar inveja; Chegamos a brincar que nos encontraríamos no andar de cima, me referi, apontando para o céu. Parecia muito natural seu jeito de ser. A não ser que ele estivesse representando-se alegre, para enganar a si próprio. Enquanto éramos bombardeados com diversas injeções, ele em um leito e eu em outro, as enfermeiras verificavam nossas pressões e batimentos cardíacos. Às dezoitos horas foi servido a janta e, João Carlos, continuava alegre, como se o que lhe ocorreu tivesse sido apenas um susto. Enquanto o cardápio era servido com arroz branco acompanhado de feijão, ambos sem sal, e de mistura uma pequena panqueca, ele brincava pedindo uma feijoada. Após (11) comer toda comida – diga-se – pouca, ele soltou essa: “Enfermeira, não deu nem pra encher o buraco do dente”. – Disse isso e sorri.

                                              Após passarmos a noite na sala de emergência, com a madrugada sendo monitoradas pelas enfermeiras que nos picavam várias injeções acompanhadas de vários comprimidos, veio o dejejum: Um pãozinho sem sal e um copo médio de café com leite. E João Carlos, não resistiu, brincou novamente: Vocês querem é ver, eu morto. Eu não vejo a hora de sair daqui e comer um belo churrasco... Aquele churrasco, bem gordo e suculento, acompanhado com aquela cerveja geladinha!

Sim, passado o momento mais crítico, a alegria tomava conta da gente. João Carlos sorria, pra tudo e todos não interessavam o comentário, pra ele, havia sempre algo hilário em qualquer palavra ou ação. Até o fato de fazermos xixi, dentro de um saco (Não era permitido levantarmos da cama) ele achava engraçado e brincava com isso, dizendo a largo sorriso: “Se eu passo por uma situação constrangedora como essa, então consigo passar por qualquer coisa que vier pela frente”. – Referindo-se, talvez, a uma possível cirurgia - A vontade de urinar era imensa, devido, ao montante de soro que tomávamos via venal. Após o dejejum, fomos transferidos para o terceiro andar do prédio, sala 324; Logo em seguida, ele foi transferido para o quarto andar, desde então, não obtive mais notícia dele. Até tentei subir ao pavimento em que ele se encontrava, mas fui impedido pelos enfermeiros; Se era grave seu estado, se foi feito o cateterismo, se foi apenas um susto, nada disso fiquei sabendo. Ficou em minha memória, toda sua alegria, isto, era admirável. Por seu jeito, é possível, que ele esteja exalando sua alegria até agora. Espero também, que ele tenha tido mais sorte do quer eu, para que ele possa sorrir cada dia mais.

A hora da limpeza do quarto chegara, com muita eficiência, a turma foi rápida, em pouco o tempo, o leito que foi usado por João Carlos, estava pronto à espera de mais um paciente a me fazer companhia; E não demorou muito, cerca de uns dez minutos, chegou um senhor de uns cinquenta anos. Magrinho ele estava, mas este era perfil, não era devido a alguma doença; Seus cabelos brancos lhes davam a aparência de quem sofrera muito na vida e, talvez, por não se alimentar bem. E podia até este ser o seu mesmo corpo. Seu problema de saúde, logo fiquei sabendo. Falar era o seu forte; mais falava... Falava... Falava...!

Sr. José, como era chamado, que eu não sei o nome. Ele, só melhorava, quando tomava bastante oxigênio. Segundo ele, os rapazes que levavam o tubo de oxigênio até sua casa, já estavam em atraso. Na falta do oxigênio, ele foi obrigado vir às pressas ao hospital, para tomar o oxigênio. Ou seja, a vida dele depende dos cilindros com oxigênio.

(12) Ele é uma pessoa que está sempre de alto astral, apesar dos sofrimentos com a saúde debilitada. Este dia em especial, por ter passado sufoco, pela constante falta de ar. Aproveitou que estávamos a sós, e mostrou-me a cirurgia que dava pra ver a cicatriz, a qual ia da costela direita à esquerda. Repetia vez após vez, sua história de vida enferma, a quem lhe dirigisse a palavra. Como um grande fazedor de amizade, não perdia uma oportunidade, contando suas histórias inglórias. Em umas de suas brincadeiras, ele soltou essa pérola: “Cavalcante, vou te falar uma verdade, quando eu sair daqui, vou é tomar uma pinga com limão. Você sabia que às vezes, a pinga é melhor que o gás de oxigênio que inalo? Pois é, sempre que bebo, me sinto muito melhor. É verdade, pode acreditar.” Falando isso, danou-se a ri. Reparando meu desânimo, resolveu aconselhar-me, porque cirurgia pior ele já fizera e ainda se encontra com o problema de falta de ar, e mesmo assim, andava se sentindo muito bem. Quer dizer, não estava desanimado. Lembrou-me, que além de novo, eu era forte, não tinha o que temer. Vai dar tudo certo, vai na fé – Dizia ele.

Falante como ele, só feirante! O que eu achava engraçado nele, era o fato de quando ele via os médicos ou os enfermeiros, inventava um monte de problema na saúde. Ora, era a cabeça que doía à noite ou, não dormia direito por tossir muito, reclamava de dores nas costas, e por isso não conseguia dormir direito... Em fim, não sabia como estava aguentando tanto sofrimento. Dizia até que estava com febre, mas, logo era desmentida. Quando os profissionais da saúde se iam, não demoravam segundos para que ele se estabelecesse, e permanecesse apenas seu verdadeiro problema: A falta de ar. Vi que era tudo invenção dele quando, certa noite, acordei na madrugada por não conseguir dormir (quando eu estava quase pegando no sono, vinha um enfermeiro me dar algum tipo de medicamento), ele dormia feito um anjo e, não deu nenhum pigarro sequer.

Ele gostava de chamar a atenção. Umas das histórias que ele me contou, acreditei ser verdadeira. “Imagine Cavalcante, a minha ex-mulher é tranqueira* mesmo. Veja meu estado, eu aqui quase morto, as custa do SUS, ela teve coragem de ir à minha casa pra pedir-me dinheiro para pagar dívida aos traficantes? Ela dizia que pagava, ou morria. Você acha que eu tenho dinheiro? Olha o meu estado, se eu tivesse dinheiro, estaria nessa situação? Se vira! Ela saiu com raiva... Bem, pelo menos ainda está viva. Aquilo não presta Cavalcante. Ainda bem, que ela me largou para viver com outro homem, graças a Deus ela foi embora - faz tempo – só aparece pra me encher o saco... Parece um carma. Vou te dizer, não é fácil não meu irmão!”

(13) Seu José e eu ficamos no mesmo quarto por quase três dias, quando recebeu alta à tarde. Havia chegado a notícia que, entregaram na casa dele o oxigênio que ele tanto precisava. Desejando-me saúde e sorte, foi se recuperar em sua casa. Desejei tudo de bom pra ele também.

Um senhor de idade, uns setenta e nove anos talvez, acabara de ocupar a vaga deixada pelo senhor José. Fazia uma semana que havia sido operado. Coitado, seu corpo debilitado mostrava que, havia perdido peso. Aparentemente, dava a impressão que seu peso não passava de cinquenta quilos. Homem branco, de cabelos alvos indicando que o tempo lhe passara; Com ele, a esposa sempre ao seu lado. Uma senhora com quase a mesma idade, talvez, uns três anos mais jovem, o acompanhava ajudando-lhe na luta pela vida. Como havia jurados no casamento: Na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença, e porque não dizer, também na velhice. Contudo forte preparada para passar dias e noites ao seu lado, enquanto ele se recupera deitado num leito hospitalar. Sr. Enézio, chegou consciente, aparelhado e com soro na veia e outros medicamentos mais... Dava pra ver que estava se recuperando bem, disposição era o que não lhe faltava; seu maior problema era na hora de ir ao banheiro, porque às vezes, ele esquecia que estava acamado e que seu repousa era motivo de sua cirurgia de próstata. Devido ao esquecimento, ele se levantava no meio da noite, sozinho, sem esperar ajuda de ninguém. A consequência era dolorida. Nesta hora a velha esposa entrava em ação, para que ele não se machucasse tanto. O acesso que lhe alimentava de soro e outros remédios, escapava-lhe da veia, causando-lhe sangramento. Obrigava assim, os enfermeiros lhe furar outra veia. Ato complicado, suas veias eram muito fininha. Ele tinha momentos de criança. Terminava por discutir com a mulher, porque queria ir só. Num repente ele voltava ao normal, lúcido, aceitava a ajuda que lhe era oferecida pela esposa. Por causa desse lapso Sr. Enézio sofria mais um pouco com as furadas que os enfermeiros lhe davam. Sua magreza dificultava a entrada da agulha. Ao ver os seu sofrimento, seus gemidos, de certa maneira eu também sofria. Ficava imaginando que gordo como eu era, sofria, ele então? Os enfermeiros novos na função era outro agravante. A inexperiência fazia com que estourassem a veia do idoso, sempre que iam lhe repor o acesso. No período diurno já era mais fácil e, menos sofrido, pra ele; Passávamos o tempo conversando sobre tudo, desde política a doenças... Acredite, ele me dava muita força e conselhos, para que eu tivesse esperança e não temesse nada. Cita-se como exemplo. Apesar de tudo, ele enfrentava sua quarta cirurgia, estava ali, firme e forte... Mentalmente forte e pronto pra outra. E fala sempre com um sorriso, belo (14) sorriso no rosto. Grande exemplo! Sr. Enézio, sabia do que estava falando. Apesar de cada corpo reagir de maneira peculiar.

Realmente Sr. Enézio era um exemplo de superação, pois, ninguém passa por quatro cirurgias ilesas. Os ossos à mostra indicavam seu estado após cirurgia... Coitado! Cirurgia delicada; E animado como ele só. A esposa dele, quando me via sem querer me alimentar (me faltava apetite) procurava me animar com palavras; falava que eu tinha que me alimentar que eu era forte e que minha família gostava de mim... Que ia dar tudo certo. Que eu não podia jamais desanimar, minha família precisava muito de mim. Nada iria dar errado comigo, porque eu era forte e ainda uma criança em vista do esposo dela. “Veja ele – Dizia ela, apontando para o marido – esta é a quarta cirurgia que ele encara e graças a Deus, ele está aí contando histórias e com você não será diferente.” “Deus, vai ajudar você também.” – Finalizou.

 O velho havia passado por tantos problemas, que me vendo ali, ele não me olhava com piedade, e sim, procurava me mostrar que nada era tão normal, quanto o que estava se passando comigo. Era como se nada estivesse se passando com ele. Tudo pra ele era normal. O jeito espontâneo e como ele via a situação é que me fazia bem. Eu me sentia muito bem conversando com ele. Com ele, aprendi a perde o medo e, mais importante, o porquê de perder o medo da morte. E assim comecei ver as coisas de maneiras diferentes.

O sacrifício que Sr. Enézio passava pra tomar banho, fazer suas necessidades fisiológicas, levantar do leito... Não era fácil! Tanto ao dia ou no período noturno, a coitada de sua esposa estava alerta todo momento, para ajuda-lo no que fosse preciso. O que era mais admirável é que ela fazia tudo naturalmente; Ela estava acostumada com a vida hospitalar do marido. “Já estou acostumada a dormir em hospital.” – Dizia ela. “Cuidando do velho ou das filhas, dos netos e até dela mesma, quando a internada era ela.” – Continuou. Bem, ela dizia: “Filho, a vida é assim, estarmos preparado pra tudo”... “Temos de estar preparado pra tudo. O importante é estarmos vivos.”

Quando eu via o velho se alimentando tão bem daquele jeito, eu não entendia porque me faltava apetite. Com muito esforço dava alguma colheradas, mesmo contra a vontade. A falta de apetite, talvez fosse motivada pelos litros de soros que eu tomava diariamente. Pois é, senhor Enézio também tomava soro e comia feito um leão.

Fiquei feliz quando ele recebeu alta hospitalar. Agora ele podia, no conforto do lar e envolto da família, ter um pouco mais de paz e assim, uma recuperação mais rápida... Ele se foi, desejando-me muita saúde e sorte; e eu retribuindo-lhe o mesmo. O ser humano é assim! Igual diz a mulher de senhor Enézio: Temos que está preparado pra tudo, mas um pouco de sorte não faz mal a ninguém. Homem de sorte, seu Enézio!

Não demorou muito e o leito Já era ocupado novamente; Desta vez por um senhor de mais idade... Uns oitenta e poucos anos. Deu entrada no hospital, com suspeita de derrame cerebral (AVC). Chegou muito mal, contudo, já havia sido medicado. Aguardava internado, a recuperação de seu estado. Pois, o momento mais crítico passara. Após alguns exames, os médicos constataram que não havia ocorrido o AVC. Começaram assim a pesquisar o que realmente ocorrera com o novo hóspede; Senhor Francisco Delta. Ao ouvir um dos parentes, os médicos ficaram sabendo, que senhor Delta foi encontrado desacordado, ao lado do banco da praça em que esperava o filho voltar, tinha ido a uma constituição financeira. Segundo, o filho, o velho supostamente deveria ter cochilado enquanto estava sentado e, tombou do banco, acertando a cabeça no cimentado e desmaiou. Alguns médicos chegaram a suspeitarem de tentativa de homicídio. Não sei o final dessa história...

Quando de minha alta hospitalar, senhor Francisco Delta, havia melhorado um pouco e até estava reconhecendo alguns da família. Pela idade avançada, dava pra ver que era um homem durão. A filha mais velha parecia se preocupar um pouco mais com o velho pai. Demonstrava muita tristeza ao ver o velho naquele estado, fazia-lhe bastante carinho no rosto. Via-se muito pesar no semblante da filha. “Momentos mais difíceis meu pai já passou, e com certeza irá superar esta situação.” – Dizia ela, às lágrimas.

Pelo que vi do senhor Francisco Delta, com certeza ele chegará e passará dos 100 anos de idade, tranquilamente. O velho balbuciava algumas palavras com extrema dificuldade, devido o estado paralisado que parte da boca se encontrava. Seu lado esquerdo estava quase que completamente inerte. Mas, nada que com o tempo ele não volte ao normal, ou, quase. Realmente, o idoso era forte. Após minha alta, não tive mais notícia do senhor Francisco Delta. Contudo, espero e desejo que ele esteja muito bem. Antes de minha saída, alguns de seus familiares, me desejaram felicidades, e com palavras, me deram muita força e esperança. Palavras de conforto, para que eu não desanimasse, porque minha tristeza e o desânimo poderiam me levar à depressão. Aconselharam-me também a me alimentar direito. De certa maneira demonstram-se preocupado comigo. Fiquei surpreso e agradecido; Éramos desconhecidos... Como, todos os pacientes são. “Se você senhor Osvaldo, não se alimentar direito, os médicos vão lhe ministrar mais remédios para que você se recupere, e isso retardará sua saída.” – Diziam referindo-se ao tratamento que eu continuaria em casa, até a data da cirurgia. Porque era no meu lar que eu ia aguardar o dia C. Realmente, o tratamento em casa, seria muito (16) melhor. Mesmo abatido e sem fome, resolvi comer forçadamente. Como minha própria mente dizia: Será pro meu bem.

*Os nomes dos pacientes, os quais narrei histórias, foram mudados, por esquecimento de minha parte. Por isso usei nomes fictícios.

 

 

 
ESTE SOU EU NO CORREDOR, A ESPERA DO VEREDITO (primeira imagem do autor internado a espera de cirurgia)
 

 

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